Este texto foi elaborado imediatamente após minha leitura da
obra em questão. Procurei atualizar e reenvia-lo para,
mais uma vez, para evidenciar como certos
calvinistas podem ser desonestos intelectualmente ao caracterizar a teologia na
qual não creem, de uma maneira que não corresponde à realidade. A intenção não
é criticar teólogos calvinistas ou o autor mencionado, uma vez que todos eles
se alinham à ortodoxia cristã. Entretanto, é necessário fazer uma exceção para
criticar um espantalho grosseiro que foi criado na obra Inteligência Humilhada,
de Jonas Madureira, que chegou a ser o livro religioso mais vendido na Amazon.
A base da obra é maravilhosa e edificante, mas o gênio do autor não o livra de
grandes erros teológicos.
A Inversão da Ordem Bíblica: Filosofia acima das
Escrituras
No primeiro capítulo do livro — que, a propósito, contém
observações geniais sobre a atitude do cientista e do teólogo diante de Deus —,
o autor cai num erro metodológico elementar. Para que a realidade da escrita se
ajuste aos seus inflexíveis conceitos calvinistas, que defendem a regeneração
monergística como algo que precede qualquer sinal de consciência espiritual no
ser humano, ele declara de forma explícita:
"De fato, o platônico acerta quando diz que a condição
primordial não é conhecer para ser liberto, mas ser liberto para
conhecer." (Pág. 64)
Essa tentativa de validar o platonismo como uma forma de
fundamentar a ordem da salvação (ordo salutis) reformada resulta em um evidente
curto-circuito teológico. Ao tentar legitimar a noção de que o homem deve ser
regenerado (liberto) antes de exercer fé ou ter conhecimento salvífico, o autor
distorce a lógica clara e evidente das Escrituras. A Palavra de Deus é clara e
não permite interpretações errôneas teológicas:
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos
libertará." (João 8:32)
No âmbito da epistemologia bíblica, conhecer a Verdade que
se fez carne não é o fim em si de uma libertação mística; é o que produz tal
libertação. A ordem de Deus é bem
definida: conhecer para ser livre. Quando um teólogo faz o texto sagrado caber
no seu sistema confessional, ele não está humilhando a inteligência diante de
Deus, mas diante de um sistema humano.
Entre as versões do platonismo e a objetividade do texto de João, a
opção correta é sempre optar pela Escritura.
Reducionismo e Caricatura no Debate da Graça
Se a inversão filosófica do primeiro capítulo poderia ser
interpretada como um deslize isolado, o cenário se agrava drasticamente no
capítulo 2. É nele que o autor ressuscita um velho e desgastado espantalho
contra o arminianismo. Jonas nos direciona inicialmente para o conhecimento de
Deus sob a égide da "Epistemologia Monergista".
A definição clássica de epistemologia — o ramo da filosofia
que investiga a natureza, as fontes e os limites do conhecimento¹ — nos ensina
que o saber teórico busca mapear e explicar a realidade. No campo teológico,
falar em uma epistemologia monergista significa afirmar que o ser humano só
pode conhecer o Criador se o próprio Criador tomar a iniciativa soberana de se
revelar. Até este ponto, qualquer arminiano clássico sério concorda plenamente
e subscreve a tese: Deus é o sujeito ativo da revelação; nós somos os
receptores dependentes.
O erro crasso, porém, ocorre quando o autor decide transpor
esse conceito epistemológico diretamente para o campo da soteriologia (a
doutrina da salvação), onde constrói uma antítese artificial, simplista e
teologicamente pobre para um debate complexo que já dura séculos. Ele define o
monergismo soteriológico da seguinte forma:
"...é o entendimento de que a salvação do homem é o
resultado da obra de apenas um agente, a saber, Deus. Assim, nada que o homem
fizer vai contribuir para sua salvação, que ocorre tão somente porque Deus
assim o quer." (Pág. 70)
Preparando o terreno para o golpe definitivo, ele apresenta
a versão do sinergismo:
“...é a perspectiva que concebe a salvação como uma
interação entre Deus e o homem. No sinergismo, a salvação não é uma obra
exclusiva de Deus.” (Pág. 70)
A partir dessa redução simplista, ele conclui de forma
pretensiosa que o monergismo pauta-se rigidamente no princípio do Soli Deo
Gloria (a glória somente a Deus), alegando que para isso acontecer não pode
haver qualquer pressuposto de mérito humano. Em contrapartida, ele afirma
categoricamente que o sinergismo inclui os atos humanos na salvação, gerando um
suposto rompimento com o Soli, visto que a salvação sinergista exigiria mérito
do homem. Para selar a acusação e não deixar dúvidas sobre quem ele deseja
colocar no banco dos réus, ele carimba:
“Veja, todo arminiano é sinergista, mas nem todo sinergista
é arminiano.” (Pág. 71)
A implicação que emerge de suas linhas é direta, desonesta e
ofensiva: para Jonas, o arminianismo sabota a soberania de Deus, prega uma
salvação baseada em obras ou cooperativismo meritório, anula o Soli Deo Gloria
e caminha de mãos dadas com a heresia semi-pelagiana.
O Ponto Cego da "Inteligência"
O grande calcanhar de Aquiles de Inteligência Humilhada
nesse ponto é debater contra uma ilusão de óptica teológica. O autor demonstra
um profundo desconhecimento do arminianismo de coração, atacando o sistema
através de clichês polêmicos de internet em vez de confrontar as fontes
primárias de Jacó Armínio ou os Remonstrantes.
Por exaltação e soberba de sua tolice de
"Inteligência", ele avança por um terreno que claramente não domina.
Se conhecesse a fundo a teologia arminiana clássica, saberia que nós defendemos
veementemente que a salvação é inteiramente pela graça. Sem a iniciativa, o
acompanhamento e a finalização da graça divina, nenhum homem pode dar um único
passo em direção a Deus.
O ato humano de crer não é uma obra meritória; é a mera
cessação da resistência à ação do Espírito Santo. Atribuir mérito humano à
aceitação da fé é uma aberração lógica: um mendigo que estende a mão trêmula
para receber um banquete não tem mérito nenhum na comida que lhe foi dada. Nós
não "fazemos" nada para construir, garantir ou barganhar a salvação;
nós simplesmente nos rendemos ao Salvador.
Por isso, as colocações do autor são eivadas de arrogância
acadêmica. A admiração profunda que nutro pela capacidade intelectual de Jonas
Madureira tornou a leitura desse trecho ainda mais decepcionante. Sua
inteligência se mostra profundamente tola ao tentar tratar de um assunto tão
delicado de forma tão desrespeitosa e desinformada. Ele falhou com a
honestidade intelectual e com a caridade cristã, criando uma barreira
desnecessária entre irmãos na fé.
Oramos para que escritores e pensadores calvinistas
reconheçam a sua tolice quando lhes falta o devido aprofundamento nas linhas
teológicas alheias. Que eles entendam que suas mentes e lógicas precisam ser
verdadeiramente humilhadas por Deus, pois quando nos propomos a pregar e
escrever sobre o que desconhecemos, apenas evidenciamos o quão tolos somos na
realidade. Que o autor não seja apenas alguém que escreve conceitos bonitos no
papel, mas que seja o primeiro a aprender com as lições de sua própria obra e
tenha a humildade de reconhecer a tolice de sua inteligência que proferiu
contra a fé arminiana.
Soli Deo Gloria,
Pr. Anderson Fábio
Master of Theology (Th.M.) pela University Christian American (Florida/EUA) em parceria com seu mestrado ministerial (Livre) pela FATEB-BA, é pós-graduado em Arminianismo pelo Seminário Batista Livre (SBL-SP). Com mais de 20 anos de dedicação ao ensino teológico, consolidou sua experiência como professor nos níveis Básico e Médio do Curso EPOS (Escola Preparatória para Obreiros Siloé) por 15 anos, promovido pela Faculdade Refidim. Aplicado na Teologia Sistemática, Teologia Pentecostal e na soteriologia Arminiana, atua como palestrante e articulista, focando na capacitação de lideranças, no aperfeiçoamento pedagógico de professores e no ministério da igreja local. É pastor auxiliar na IEADJO. Faz parte da diretoria da EBD-IEADJO na área de mídias. Atua como professor das pré-aulas do Canal IEADJO EBD no Youtube, lecionando tanto para jovens como para adultos. Casado com Paola Budal há 25 anos, é pai do Arthur e do Nathan.
(1) Definição de Epistemologia consultada em ambiente de
dicionário filosófico de termos.
Obs.: Este artigo não tem como objetivo fazer campanha
contra a leitura da obra. O livro em sua proposta macro é excelente, didático e
altamente recomendável para a igreja brasileira. No entanto, o leitor precisa
exercer o discernimento crítico necessário e blindar sua mente precisamente nas
páginas e capítulos aqui analisados.
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