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O que o maior pregador reformado do século XX disse sobre o Batismo no Espírito Santo?

 

A teologia pentecostal sempre ensinou que o batismo no Espírito Santo é uma experiência separada da regeneração, ou seja, que ocorre depois dela. Críticos de viés cessacionista, porém, costumam rotular essa visão como uma concepção recente e sem suporte histórico.  A cuidadosa leitura das obras do Dr.  Martyn Lloyd-Jones, um dos mais proeminentes representantes da tradição reformada do século XX, chega, no entanto, a uma conclusão diferente e distante do pensamento cessacionista e se alinham e se aproximam de forma surpreendente com a da teologia pentecostal.

Em O Batismo e os Dons do Espírito (Editora Carisma), o célebre "médico de almas" desenvolve uma argumentação que o coloca muito próximo do núcleo da compreensão pentecostal acerca da obra do Espírito Santo. Embora o autor não mencione o "falar em línguas" como evidência inicial, como muitos pentecostais ensinam, o fato dele crer que na experiência de capacitação posterior a regeneração faz com que seus ensinos se alinhem com o pentecostalismo. 

A discussão sobre o batismo no Espírito Santo não é de hoje. Diferentes tradições ao longo da história da Igreja interpretaram os mesmos textos da Bíblia e, muitas vezes, chegaram a conclusões opostas.  É o que ocorre comumente no debate teológico: a discussão se torna mais intrigante quando um dos líderes de uma tradição teológica específica começa a apoiar uma visão geralmente ligada a outro grupo.  Isso se aplica a Martyn Lloyd-Jones. Analisar seus argumentos nos desafia a ultrapassar os rótulos religiosos e a nos questionar se nossas crenças são influenciadas pela tradição ou pela Palavra de Deus.

É possível crer e não ser batizado no Espírito?

Para entender a conexão que existe entre Lloyd-Jones e a teologia pentecostal, é necessário, inicialmente, abandonar um conceito que se encontra amplamente disseminado entre as pessoas: a crença de que qualquer indivíduo que aceita Cristo é, de maneira automática, batizado no Espírito Santo no instante em que ocorre sua conversão. O próprio escritor, sem deixar qualquer margem para dúvidas, rejeita de maneira clara essa interpretação, veja:

"Aqui está o primeiro princípio: é possível para nós sermos crentes no Senhor Jesus Cristo sem ter recebido o batismo do Espírito Santo" (p. 30).

Segundo Lloyd-Jones, não há necessidade de que a salvação e o batismo no Espírito ocorram simultaneamente. Seu propósito exegético consiste justamente em demonstrar que a bíblia pode "comprovar que um homem pode ser um verdadeiro crente no Senhor Jesus Cristo e um filho de Deus, e ainda assim não ser batizado com o Espírito Santo" (p. 36). 

Assim, sua estrutura teológica está em harmonia com a perspectiva pentecostal ao diferenciar nitidamente entre a fé salvadora e a experiência subsequente de receber poder. Isto é, uma pessoa pode estar em perfeita comunhão com Deus, justificada pela fé, aceita como filho, sem ter experimentado o derramamento do revestimento de poder.  

Existem textos fundamentais que os pentecostais utilizam para embasar sua teologia, além de diversos teólogos que deixam evidente que a distinção entre ser regenerado e ser revestido de poder é o que leva os pentecostais a seguir uma tradição diferente das demais. 

Porém, existem também textos que são utilizados pela linha reformada cessacionista para contrapor a doutrina da subsequencia. Romanos 8:9, por exempo, costuma ser considerado suficiente para afirmar que toda a plenitude da atuação do Espírito é recebida na conversão. Lloyd-Jones, entretanto, distancia-se dessa leitura e a confronta diretamente:

"Afirmar que todo homem regenerado é necessariamente batizado com o Espírito Santo, é simplesmente ir contra o ensino claro e explícito das Escrituras Sagradas" (p. 41).

Apesar de admitir que o novo nascimento é a primeira e necessária obra do Espírito na vida de um pecador, ele não aceita a ideia de que essa experiência esgote tudo o que Deus deseja fazer pelo Espírito. De acordo com a Escritura, como o autor afirma, o cristão é gerado pelo Espírito e ter o Espírito de Cristo é requisito essencial para ser da família de Deus (Rm 8.9). Ainda assim, ele traça uma importante diferença: a habitação do Espírito que começa na conversão não é, em si mesma, o batismo no Espírito Santo. (p. 44).

Todo pentecostal que tem juízo entende que o regenerado recebe o Espírito Santo como morada, mas Atos é bastante claro ao relatar várias experiências de indivíduos que, após receberem a palavra e se converterem, tiveram a necessidade de "receber o Espírito Santo" como revestimento de poder. 

Essa conclusão é apresentada de forma concisa pelo próprio Lloyd-Jones em uma declaração que ressoa com a mensagem e os princípios da pregação pentecostal, a qual remonta aos tempos do famoso avivamento que ocorreu na Rua Azusa:

"Você pode ser regenerado, um filho de Deus, um verdadeiro crente, e ainda não ter recebido o batismo com o Espírito Santo" (p. 44).

O testemunho da História e o mistério de Samaria

Quando Lloyd-Jones vai apresentar a sua argumentação, ele dedica um tempo considerável ao livro de Atos dos Apóstolos. Seu argumento se baseia em uma consequência lógica: se o novo nascimento e o batismo no Espírito Santo fossem exatamente a mesma coisa, os relatos do Novo Testamento nos forçariam a concluir que os apóstolos tinham o poder de regenerar pessoas (p. 53). Como a regeneração pertence exclusivamente à ação soberana de Deus, a imposição de mãos realizada pelos apóstolos em episódios como Samaria e Éfeso evidencia que eles serviam de instrumento para uma experiência distinta da conversão. 

Seria totalmente ilógico e inconsistente pensar que uma pessoa pode ser salva e se converter apenas pela imposição de mãos, sem passar por uma mudança interior e um genuíno arrependimento. Essa ideia desconsidera o aspecto espiritual da fé e a transformação de hábitos, que são cruciais para a trajetória de fé de qualquer pessoa. É de uma clareza quase cristalina o que se lê no livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 8. Este trecho do texto traz informações que são essenciais para entender os eventos que ocorrem na obra. Para elucidar a circunstância em que João e Pedro descem à Samaria após Felipe pregar, é necessário entender o contexto.  Um diácono chamado Felipe pregou o evangelho em Samaria, onde muitos creram na sua palavra e foram batizados nas águas. No entanto, apesar de terem acreditado e sido batizados, os samaritanos ainda não haviam recebido o Espírito Santo. 

João e Pedro desceram àquela área com um objetivo muito claro: foram enviados para orar pelos recém-convertidos, a fim de que recebessem o Espírito Santo. Isso indica que o batismo nas águas e a aceitação da palavra são marcos significativos na caminhada de fé, porém, não são suficientes, isoladamente, para alcançar a plenitude espiritual que a presença do Espírito Santo oferece.  Portanto, a chegada de João e Pedro a Samaria foi orquestrada por Deus para garantir que os novos crentes pudessem ser enriquecidos com o poder celestial. Aqueles que estudam a teologia Lucana e a compreendem em profundidade sabem muito bem que a expressão "receber o Espírito Santo" está intimamente relacionada ao evento da doutrina do Batismo Pentecostal. 

A defesa dessa tese não se baseia somente na interpretação dos textos bíblicos. Lloyd-Jones também apela para o testemunho da história da Igreja. Ele observa, tanto no testemunho do Novo Testamento quanto na experiência histórica do cristianismo, que há uma clara distinção entre o novo nascimento e o batismo no Espírito Santo. Com isso, o avivamento não pode ser visto apenas como a salvação de pecadores, mas também como a ação poderosa do Espírito sobre homens e mulheres que já eram salvos.

O argumento da vida de Jesus

Outro argumento importante utilizado por Lloyd-Jones é o da própria vida de Cristo. Para ele, o exemplo de Jesus oferece uma das demonstrações mais expressivas da diferença entre nascer do Espírito e ser batizado com o Espírito (pp. 55/56).

Concebido pelo Espírito Santo no ventre de Maria, Jesus jamais esteve separado da plenitude do Espírito durante sua existência terrena. Ainda assim, aguardou cerca de trinta anos até o momento de seu batismo no Jordão, quando o Espírito desceu visivelmente sobre Ele, marcando o início de seu ministério público. A implicação extraída por Lloyd-Jones é direta: se o próprio Filho de Deus passou por um momento específico de unção e capacitação para o exercício de sua missão, torna-se difícil sustentar que a experiência da salvação elimine a necessidade da busca pelo batismo no Espírito Santo. 

Vários estudiosos pentecostais da teologia lucana apoiam a visão defendida por Lloyd-Jones. De acordo com esses autores, Lucas, de forma intencional, retrata a descida do Espírito Santo sobre Jesus, nas águas do rio Jordão, como um modelo para a compreensão do derramamento do Espírito em Atos 2. O evangelista, por sua vez, faz um paralelo entre a unção que inicia o ministério público de Cristo e a capacitação dada à Igreja para cumprir sua missão. Esta interpretação se alinha bastante à doutrina pentecostal da subsequência e indica que, nesse aspecto, Lloyd-Jones chegou a resultados que são muito semelhantes às posições historicamente defendidas pelo movimento pentecostal.

Conclusão

Fortemente alinhado com a tradição reformada, Martyn Lloyd-Jones permitiu que sua análise fosse guiada pela força das evidências bíblicas, chegando a aceitar a doutrina da subsequência, isto é, a ocorrência de experiências espirituais distintas que podem se seguir à conversão. Suas afirmações permanecem particularmente relevantes no contexto contemporâneo. A busca pelo poder do Espírito Santo não pode ser considerada um desvio teológico nem ser vista como uma mera expressão de emocionalismo religioso. É uma realidade que merece ser refletida com seriedade à luz das Escrituras. A necessidade dessa busca foi reconhecida por cristãos de várias tradições, que se depararam com o texto bíblico de forma honesta e com um profundo anseio de renovação. Esse mesmo desejo existe em todos os que buscam a Palavra não só com a mente, mas com o coração, querendo viver um verdadeiro avivamento.

Pr. Anderson Fábio da Silva

Bacharel em Teologia Ministerial pela FAITE-RJ. Master of Theology (Th.M.) pela University Christian American (Florida/EUA) em parceria com seu mestrado ministerial (Livre) pela FATEB-BA, é pós-graduado em Arminianismo pelo Seminário Batista Livre (SBL-SP). Com mais de 20 anos de dedicação ao ensino teológico, consolidou sua experiência como professor nos níveis Básico e Médio do Curso EPOS (Escola Preparatória para Obreiros Siloé) por 15 anos, promovido pela Faculdade Refidim. Aplicado na Teologia Sistemática, Teologia Pentecostal e na soteriologia Arminiana,  atua como palestrante e articulista, focando na capacitação de lideranças, no aperfeiçoamento pedagógico de professores e no ministério da igreja local. É pastor auxiliar na IEADJO. Faz parte da diretoria da EBD-IEADJO na área de mídias. Atua como professor das pré-aulas do Canal IEADJO EBD no Youtube, lecionando tanto para jovens como para adultos. Casado com Paola Budal há 25 anos, é pai do Arthur e do Nathan.

Referência Bibliográficas:

LLOYD-JONES, Martyn. O Batismo e os Dons do Espírito: poder e renovação segundo as Escrituras. 3. ed. Natal: Editora Carisma, 2018.
STRONSTAD, Roger. Teologia lucana sob exame. 1. ed. Natal:Editora Carisma, 2018.
________________ A Teologia Carismática de Lucas: o Espírito Santo em Lucas-Atos. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018.

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