"Independência ou morte!" foi o grito histórico de Dom Pedro I às margens do Rio Ipiranga. Naquele momento, o Brasil rompia os laços com Portugal para não mais se submeter aos interesses da coroa e traçar seu próprio caminho de crescimento. Segundo o dicionário, independência nada mais é do que a condição de não se submeter a outra autoridade e ser governado por suas próprias leis.¹
No desenvolvimento humano, esse processo faz parte do curso natural. Nascemos completamente frágeis e dependentes. Na infância, necessitamos do auxílio direto dos nossos pais para comer, nos vestir e sobreviver. Conforme os anos passam, a busca por autonomia vira a régua da maturidade: saímos de casa, nos casamos e assumimos o comando dos nossos próprios passos, deixando para trás a dependência diária da autoridade paterna.
O perigo começa quando transportamos essa mesma lógica para a vida espiritual. Quando nascemos de novo, reconhecemos de imediato nossa incapacidade diante de Deus. Porém, à medida que adquirimos conhecimento bíblico e tempo de caminhada, o coração humano cai na armadilha sutil da autossuficiência. Sem perceber, começamos a querer "andar com as próprias pernas" e tocar a vida cristã no piloto automático. Nosso velho homem tenta retomar o volante. Esquecemos que o verdadeiro marco da maturidade em Cristo não é a autonomia, mas o contrário: morrer com Ele na cruz para viver em contínua e absoluta dependência do Pai.
Essa ilusão de autossuficiência se manifesta com muita força na área financeira. É extremamente fácil creditar nosso sustento apenas à força do trabalho ou ao salário que cai na conta ao final do mês. As posses alimentam uma falsa sensação de controle. Ao comentar Salmos 30:6-7, a Bíblia de Estudo Diário Vivir adverte com precisão:
"A prosperidade tinha feito que Davi se sentisse invencível. Apesar de que sabia que suas riquezas e seu poder provinham de Deus, elas lhe subiram à cabeça, fazendo-o soberbo. A riqueza, o poder e a fama têm um efeito tóxico sobre a gente, faz-nos sentir muito confiança em si mesmos, muito seguros de si e independentes de Deus. Mas esta é uma segurança falsa que se faz em pedacinhos facilmente. Não se deixe apanhar pela segurança falsa da prosperidade. Dependa de Deus para sua segurança e não será estremecido quando as posses terrestres desaparecerem."²
Esquecemos que o fôlego nos pulmões, a força para levantar da cama e a capacidade para produzir vêm unicamente da graça e misericórdia divina. O pão de cada dia nunca foi fruto do nosso mérito, mas da provisão d’Ele. Sobre essa realidade essencial, James Shelton assevera:
"A segunda metade constata que os discípulos são um povo necessitado, totalmente dependente da provisão graciosa de Deus. Uma vez mais, esta parte do Sermão da Montanha remonta à bem-aventurança inicial: 'Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus' (Mt 5.3). O discípulo verdadeiramente humilde reconhece que está moral e espiritualmente arruinado, à parte do exemplo e recursos de Deus para o viver santo. [...] O discípulo é visto como alguém que está na dependência total da misericórdia de Deus para a próxima refeição."³
A humanidade ao nosso redor insiste em viver como se Deus não existisse, lembrando-se d’Ele apenas nas crises e tragédias. Ainda assim, mesmo os que declaram independência do Criador precisam do ar que Ele sustenta a cada segundo para continuar respirando. Nenhuma criatura escapa da soberania do Todo-Poderoso. Como comenta Antônio Neves de Mesquita:
"A história se encarregou de mostrar que assim era, que tanto os povos como os seus reinantes, todos estavam debaixo do poder de Javé. Esta concepção da universalidade do governo divino sempre escapou da observação dos povos, julgando-se eles independentes e soberanos em si mesmos. O certo é que soberano, só Deus. Só ele governa e domina nós céus e na terra, e os povos são criações suas, e os domina como quer."⁴
O mundo idolatra a ideia de liberdade absoluta — ditar as próprias regras e não prestar contas a ninguém. Esse também já foi o nosso padrão de vida antes do Evangelho. Contudo, fomos alcançados pela graça. Ao contrário do grito do Ipiranga, o grito do cristão que verdadeiramente compreendeu a cruz é outro: Dependência e Morte! Morte ao nosso próprio ego e total dependência de Deus.
Pr. Anderson Fabio da Silva
Referências:
¹ https://www.dicio.com.br/independencia/
² Comentário do Salmo 30:6, 7 da Bíblia Diário Vivir
³ Shelton, James. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento, p. 53.
⁴ Mesquita, Antônio Neves de. Comentário de Jr 1:1-19.

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