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O que é ser Cheio do Espírito Santo?

        Se recebêssemos a pergunta: “O que é ser cheio do Espírito Santo?”, qual seria nossa resposta? Creio que alguns responderiam que ser cheio do Espírito Santo é manifestar o caráter de Cristo, produzir o fruto do Espírito e exteriorizar virtudes concernentes à retidão moral e à maturidade cristã. Outros, porém, responderiam que ser cheio do Espírito Santo diz respeito a ser revestido de poder, ser batizado no Espírito Santo, ser usado nos dons espirituais e capacitado para o serviço do Reino de Deus.

    Diante dessas respostas, quem estaria certo? Podemos afirmar com convicção que ambas as respostas estão corretas, pois cada uma se apoia em uma perspectiva bíblica legítima da atuação do Espirito Santo. Isso pode ser clareado quando analisamos duas pessoas descrevendo a mesma montanha. Cada uma está num lado da montanha, uma enxerga árvores, arbustos e abundância de verde. A outra, porém, do outro lado, só enxerga pedras e rochas sem verde algum. As duas descrevem a mesma montanha, cada uma com uma perspectiva diferente da outra. 

   Quando falamos da plenitude do Espírito Santo em relação ao caráter e à conduta cristã, estamos tratando de uma dimensão importante daquilo que Paulo ensina sobre a vida de quem foi regenerado por Deus. Em Efésios 5.18, o apóstolo dá uma ordem clara: “Não vos embriagueis com vinho, no qual há devassidão, mas enchei-vos do Espírito”.

    Nos versículos seguintes, Paulo mostra como essa plenitude se manifesta na vida cotidiana: na adoração ao Senhor, na gratidão a Deus e no relacionamento com os irmãos (Ef 5.19-21). Portanto, ser cheio do Espírito não diz respeito apenas a uma experiência espiritual, mas também à maneira como vivemos e nos relacionamos com Deus e com o próximo. A plenitude do Espírito deve produzir mudanças concretas em nossa conduta, contribuindo para o crescimento contínuo na santidade.

    Por outro lado, quando voltamos os olhos para o evangelista Lucas — que emprega a fórmula “cheio do Espírito” ou termos correlatos pelo menos nove vezes ao longo de sua obra em dois volumes (Lucas-Atos) —, deparamo-nos com um foco pneumatológico marcadamente distinto. Como observa o teólogo Roger Stronstad, na perspectiva de Lucas, o dom do Espírito Santo está ligado principalmente à capacitação dos cristãos para o serviço e o testemunho profético, e não tem como finalidade principal a salvação ou a santificação interior¹. Por isso, Lucas não usa essa expressão para falar do desenvolvimento de virtudes morais ou da regeneração do ser humano. Nos relatos do Evangelho e de Atos dos Apóstolos, ela aparece associada à capacitação concedida pelo Espírito Santo e à inspiração profética que habilitam a Igreja a cumprir a missão que Deus lhe confiou de testemunhar de Cristo e anunciar o Evangelho.

    O teólogo pentecostal Robert Menzies corrobora essa constatação ao ressaltar o extremo cuidado de Lucas em não associar diretamente a concessão do Espírito a esferas amplas do sobrenatural geral (como curas e expulsões de demônios, para as quais o evangelista frequentemente aponta o "poder de Deus" ou o "dedo de Deus"; cf. Lc 5.17; 6.19; 8.46; 11.20), reservando o dom do Espírito essencialmente para a capacitação vocacional e o testemunho proclamador². Essa distinção decorre diretamente do fato de que Lucas foi profundamente influenciado pelo vocabulário e pela teologia da Septuaginta (LXX), a tradução grega das Escrituras hebraicas amplamente utilizada pela Igreja Primitiva.³

Ao examinarmos as manifestações do Espírito no Antigo Testamento, constatamos que o Espírito de Deus revestia ou enchia os indivíduos com um propósito estritamente funcional. Encontramos esse paradigma no chamado de Bezalel e Aoliabe: “E o enchi do Espírito de Deus, de sabedoria, e de entendimento, e de ciência, em todo o labor” (Êx 31.3; cf. Êx 35.31). Eles não foram capacitados para uma transformação mística interior, mas revestidos de habilidade sobrenatural para o labor prático na edificação do tabernáculo.⁴

    No Antigo Testamento, a capacitação do Espírito era concedida a pessoas escolhidas por Deus para desempenhar funções específicas. Entre elas estavam juízes e reis, capacitados para liderar e governar o povo; profetas, inspirados para anunciar a Palavra de Deus; e determinados sacerdotes e artífices, habilitados para realizar tarefas relacionadas ao culto e ao serviço sagrado.⁵ Como destaca Stronstad, nos relatos de Lucas, a expressão “cheio do Espírito” descreve uma ação de inspiração divina que se manifesta, de modo recorrente, na proclamação da Palavra e no testemunho profético.⁶

    Essa capacitação para o serviço fazia parte da maneira como o judaísmo do Segundo Templo compreendia a atuação do Espírito. Naquele período, havia a percepção de que a voz profética estava ausente, ao mesmo tempo que crescia a expectativa pelo cumprimento das promessas messiânicas e pela restauração da profecia.⁷ Mais tarde, Paulo daria destaque a outra dimensão da atuação do Espírito Santo: sua obra na salvação. Em seus escritos, o apóstolo apresenta o Espírito como aquele que atua na regeneração e confirma a nova condição dos que, pela fé em Cristo, foram recebidos na família de Deus.⁸

    Lucas, porém, mantém essa herança do Antigo Testamento, segundo a qual o Espírito capacita os servos de Deus para o serviço e para testemunhar com ousadia. A grande novidade do Pentecostes foi que essa capacitação, antes associada a pessoas escolhidas para funções específicas, passou a ser concedida a toda a comunidade de cristãos. Assim, a Igreja tornou-se um povo chamado e capacitado pelo Espírito Santo para testemunhar de Cristo e anunciar o Evangelho a todas as nações, dando continuidade à missão profética de proclamar a Palavra de Deus. ⁹ 

    
Diante dessas duas dimensões da atuação do Espírito Santo — a transformação do caráter, destacada por Paulo, e a capacitação para o testemunho e o serviço, ressaltada por Lucas —, somos chamados a buscar continuamente a plenitude do Espírito. Ser cheio do Espírito Santo não é apenas lembrar uma experiência vivida no passado, mas reconhecer que precisamos da sua presença e capacitação em nossa caminhada cristã. Na perspectiva pentecostal, essa verdade é expressa na conhecida afirmação: “um batismo e muitos enchimentos”¹⁰.

    Em Efésios 5.18, Paulo nos orienta a viver em constante dependência do Espírito Santo. A ordem bíblica aponta para uma vida marcada por essa busca contínua, e não por uma experiência isolada. Foi assim com a Igreja Primitiva: depois de se reunirem em oração, os discípulos foram novamente cheios do Espírito Santo e anunciaram a Palavra de Deus com ousadia (At 4.31).

    Essa também deve ser a nossa atitude. Precisamos buscar a Deus com sinceridade, reconhecendo que dependemos dele para viver e cumprir a missão que recebemos. Por isso, não devemos nos acomodar a uma vida cristã limitada às nossas próprias forças. Que perseveremos em oração, na leitura da Palavra e na consagração pessoal, permitindo que o Espírito Santo conduza nossa vida. Dessa forma, cresceremos em santidade e seremos capacitados a testemunhar de Cristo com ousadia, servindo fielmente ao Reino de Deus.


Pr. Anderson Fábio

Referências

¹ STRONSTAD, Roger. A teologia carismática de Lucas: trajetórias do Antigo Testamento a Lucas-Atos. Tradução de Luís Aron de Macedo. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p.23.

² MENZIES, Robert P. Empowered for witness: the Spirit in Luke-Acts. London: T&T Clark International, 2004, p.113.
³ 
STRONSTAD,  2018, p.33.
⁴ PALMA, Anthony D. O batismo no Espírito Santo e com fogo: as promessas bíblicas, as manifestações do poder de Deus e a evidência inicial das línguas. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p.19
⁵ STRONSTAD, 2018, pp. 35, 45
⁶ Ibid, p. 89
⁷ Ibid, p. 53
⁸ MENZIES, 2004, p. 113
⁹ STRONSTAD, 2018, p. 23, 77
¹⁰ PALMA, 2002, p. 98


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